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Percorrer a Mouraria: o centro multiétnico de Lisboa
Na semana passada, aproveitei o Dia Mundial dos Monumentos e Sítios, 18 de abril, para conhecer a Mouraria, um dos bairros históricos mais emblemáticos de Lisboa. Durante o percurso, notei que já havia passado por algumas ruas em pelo menos 2 momentos, mas passar não é conhecer. Precisava ser apresentada ao local. A apresentação foi feita pelos arquitetos Teresa Duarte, Falcão Campos, Luís Braga e pelo arqueólogo Antonio Marques, profissionais envolvidos no Programa de Ação QREN Mouraria, um programa que abrange a repavimentação das vias, recuperação de alguns edifícios e renovação de praças. Além deles, também estava presente o historiador José Sarmento de Matos.
O percurso teve início no Largo Adelino Amaro da Costa, depois seguiu pelas Rua do Regedor, Largo do Trigueiro, Rua Marquês de Ponte do Lima, Rua da Guia, Largo da Severa, Rua do Capelão, Rua da Mouraria, Rua do Benformoso e terminou no Largo do Intendente. O trajeto está representado nas linha laranja do mapa abaixo, que está no site http://www.aimouraria.cm-lisboa.pt/. Enquanto percorríamos as ruas, ouvíamos as explicações técnicas e históricas, informações sobre o presente e
passado, muitas vezes abafadas pelo ruído dos tratores e homens em obra. O que me interessava mais era a explicação histórica.

Herança dos mouros
As obras na Mouraria são acompanhadas por arqueólogos porque o local começou a ser povoado na Idade Média e existe a possibilidade de encontrar objetos utilizados pelas populações mais antigas. As origens da Mouraria remontam ao ano 1170, quando o rei D. Afonso Henriques concede oficialmente esta zona aos mouros, povo de origem árabe e muçulmana que dominou regiões de Portugal e da Espanha entre os séculos VII e XV. Em Lisboa, essa dominação ocorreu entre 714 e 1147, data em que foram derrotados por D. Afonso Henriques com a ajuda dos Cruzados. Após a Reconquista Cristã, os mouros ficaram isolados na Mouraria, onde mantiveram suas tradições e atividades religiosas e econômicas. Sob a liderança de um alcaide, que também tinha o papel de juiz, a comunidade mourisca conseguiu certa liberdade religiosa, mas pagava impostos mais pesados que a comunidade cristã. Essa relativa liberdade foi interrompida em 1496, quando o rei D. Manuel I expulsou de Portugal judeus e muçulmanos que não quiseram se converter ao cristianismo.
Mas a herança árabe e muçulmana ainda está presente no traçado urbano irregular característico dos locais mais pobres da Mouraria, os quais não passaram pelos processos de reurbanização iniciados nas décadas de 50 do século XX e que deram origem ao Centro Comercial da Mouraria e à Praça Martim Moniz.
Talvez uma das principais influências dos mouros esteja na própria origem do fado, que teria inspiração nos cantos melancólicos islâmicos.
Território híbrido
O bairro também tem importantes edificações cristãs construídas após a expulsão dos mouros. Uma das mais emblemáticas é o antigo Convento de Santo Antão-o-Velho, na Rua Marquês de Ponte do Lima, que em 1542 se tornou a primeira fundação da Companhia de Jesus, onde foram educados os primeiros missionários jesuítas.
A Mouraria manteve, ao longo da história, sua essência multiétnica. No século XIX, ficou conhecida por ser uma zona de probres e prostitutas. Hoje é um local habitado por portugueses e imigrantes africanos, indianos e chineses.
Atrações da Mouraria
No percurso que fizemos, passamos por locais pitorescos, como o Largo dos Trigueiros, onde podemos ver fotografias dos moradores mais antigos colocadas nas fachadas de suas próprias casas. O projeto, intitulado Tributo, é da fotógrafa inglesa Camilla Watson, que tem um ateliê no local.
Outro ponto alto do passeio foi o Largo da Severa, local onde viveu a fadista Severa, no século XIX, considerada a primeira cantora de fado. Digo que foi um dos melhores momentos da visita por conta da importância do Largo e por eu ter passado pelo local algumas semanas antes mas sem saber do que se tratava. No momento, o Largo é um verdadeiro canteiro de obras, mas, segundo o projeto de revitalização da Mouraria, a Casa da Severa será um café/bar com atividades relacionadas ao fado.
Vale ressaltar outros locais que também chamaram nossa atenção durante o percurso, como a Igreja de São Cristóvão, as Escadinhas de São Cristóvão, a Igreja de São Lourenço, a Rua do Benformoso e o Largo do Intendente.
Visitas guiadas pela Mouraria
Esta visita foi oferecida pela Câmara Municipal de Lisboa excepcionalmente para o Dia Mundial dos Monumentos e Sítios, mas existem passeios temáticos pela Mouraria oferecidos em qualquer época do ano, como os que são organizados pela Associação Renovar a Mouraria.
Para saber mais:
http://www.aimouraria.cm-lisboa.pt
http://www.renovaramouraria.pt
Lisboa: amor à segunda vista
Cheguei dia 9 de julho em Lisboa e hoje é dia de voltar para São Luís. Foram 46 dias dedicados a mim, ao meu namorado, que mora aqui, e à cidade. É a segunda vez que venho, mas a primeira no verão. Um verão estranho para os padrões europeus, fez um friozinho em várias noites até o fim de julho.
Mas o clima não ofuscou o prazer de andar pela cidade, de subir as ladeiras da Graça, de me perder nos becos de Alfama, de passear por Belém e de parar no Parque das Nações para pensar na vida diante do Rio Tejo.
E pensei.
E decidi que quero esta cidade para mim. Não, ainda não dá para comprá-la, apesar da crise econômica que o país enfrenta, pauta principal das notícias e conversas de esquina. Eu quero esta cidade na minha vida, na minha história.
Assim como São Luís e Brasília já estão. Não quero ter apenas lembranças de viagens curtas com boas fotos em monumentos, quero fazer parte da cidade e que ela faça parte de mim. É uma boa troca.
Toda esta enrolação para dizer que EU AMO LISBOA. Não é fácil eu declarar amor, primeiro eu sempre justifico. E só declaro agora, na segunda viagem, porque Lisboa foi ainda melhor comigo agora e acho que o amor é recíproco.
Lisboa fez de tudo para me conquistar e arrancar de mim esta declaração. Vejamos:
Me presenteou com 3 festivais de música e dança gratuitos: Festival ao Largo, Festival CCB Fora de Si e Festival dos Oceanos. Me ofereceu a sacada do prédio onde nasceu Fernando Pessoa para ver o maestro austríaco Peter Guth reger a Orquestra Sinfônica Portuguesa num Baile Vienense, no Largo de São Carlos. Me deu o camarote do Coliseu para ver a nova diva do jazz Esperanza Spalding. Me encantou com Joss Stone e Sara Taves na Praça do Comércio. Reservou para mim cadeiras disputadíssimas no Pátio da Galé para que eu tivesse mais conforto e me emocionar com os encontros de António Zambujo e Roberta Sá; de Ana Sofia Varela com Yami (Angola) e Ritinha Lobo (Cabo Verde); de Ana Moura com Ray Lema (Congo); e de Maria Ana Bobone com Sónia Shirsat (Índia). Me fez vibrar com as performances dos bailarinos da Companhia Nacional de Bailado e com os espetáculos WaterWall e Muaré. Me deixou tietar o grupo Bombino e ouvir o som maravilhoso dessa banda formada por tuaregues, povo nômade do deserto do Saara.
Ah, eu entendi o plano de Lisboa.
Quis mostrar para mim o quanto ela é cosmopolita, multicultural. Recebe diferentes artistas e estilos do mundo todo. Ela sabe que isso é armadilha para me pegar de jeito. Foram muitos mimos, muitos vinhos, deliciosos queijos e muitas imperiais, que é a forma como se pede um chope aqui. Nada mais gostoso que parar em uma esplanada e pedir uma imperial para contemplar a paisagem. Ainda bem que não cobram couvert artístico pela contemplação do conjunto arquitetônico.
Também tivemos pequenos conflitos decorrentes da convivência. Tinha que aumentar o valor de todas as tarifas de transporte? Eu sei, é a crise. E posso listar outros defeitos, mas as nossas pequenas confusões e nossos desentendimentos fazem parte da relação.
Quando vi Lisboa pela primeira vez, eu não pensei que teríamos compromisso. Uma paquera de curta temporada, uma turista que desembarca ansiosa em sua primeira viagem mochilão pela Europa e chega em Lisboa, curte, aproveita, mas não deixa de pensar em como estará o clima em Madri, Barcelona, Paris e
Londres. Lisboa não me fez perder o fôlego na primeira vez que eu a vi. Fiquei encantada, mas não perdida de amor. Mas agora, na segunda viagem e com dedicação exclusiva, Lisboa me faz recuperar o fôlego de um primeiro semestre complicado. Me faz ter forças para voltar ao Brasil, organizar minha vida e meus projetos em São Luís para vir novamente para cá e passar o tempo que estiver reservado para ela na minha história.
Saramago disse que “sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”. Por isso eu tenho certeza do meu retorno.
Até logo.
Ah, minha máquina fotográfica pifou e todas as imagens foram tiradas com a câmera do meu celular, apenas 2.0 megapixels. Mas apreciem.








